terça-feira, 1 de março de 2011

O Beira-Rio e a Copa do Mundo

Com certeza alguns dirão que eu deveria estar me dedicando somente com o futebol e não com questões relacionadas com obras do Beira-Rio. É verdade, sou o primeiro a reconhecer que a minha energia deve estar canalizada unicamente para o futebol. Mas não está e por razões óbvias, pois na minha função devo defender o futebol como atividade preponderante do nosso Clube.

Tenho um compromisso que assumi ao decidir discutir, dentro do possível e no espaço público, as questões relacionadas com a direção de futebol do Clube. Por que faço isso?
Por dois motivos, dos quais não abro mão. O primeiro diz respeito à repercussão do futebol. Imagino que, sendo o mais transparente possível, evito uma série de coisas que, via de regra, recaem sobre aqueles que assumem posições de interesse público. Sei muito bem como é isso, pois na minha atividade profissional, que é pública, já estou acostumado com o controle social. Ele é fundamental e deveria estar presente em nosso país há muito mais tempo e de forma mais difusa.O segundo, em específico, é com relação à magnitude do momento: com a história. Sim, com a história do nosso centenário INTERNACIONAL.

Passemos aos fatos:

A escolha do Beira-Rio para ser uma das sedes do mundial de 2014, foi festejada por todos nós, com a divulgação do slogan “A Copa é Nossa”.A partir de então, começaram uma série de investidas para que em Porto Alegre o outro estádio, que está em construção nas cercanias do aeroporto, também fosse contemplado com a Copa.

Algumas fragilidades do nosso modelo inicial, especialmente do suporte financeiro, estruturado na venda de suítes para enfrentar os custos da construção, foram, desde o primeiro momento, rechaçados pela FIFA. A FIFA passou a exigir do INTER garantias bancárias para a construção.  Elas não foram obtidas.Tínhamos, como sustentação do modelo, arcando diretamente com as despesas das obras, o resultado da venda dos Eucaliptos e a projetada e imaginária arrecadação com a venda de suítes, camarotes e cadeiras.

Objetivamente, embora já iniciadas as obras, vendemos em torno de vinte e seis suítes, sendo que destas, dezesseis migraram das já existentes, anteriormente comercializadas.
Diante disso, inclusive das variações do orçamento inicialmente apresentado, de cento e cinqüenta milhões, o presidente Giovanni Luigi, de forma responsável e atenta, retomou a discussão acerca do modelo adotado e os seus riscos. Não poderia ele arcar com a indelével e histórica responsabilização pela perda da Copa ou pelo colapso do modelo de realização das obras.

Em síntese, só há duas hipóteses: ou arcamos com o custo total da obra e, para manter a Copa no Beira-Rio, realizamos um empréstimo bancário de aproximadamente cem milhões de reais ou estabelecemos uma parceria com uma construtora que, sozinha, em troca da exploração das receitas advindas e por determinado tempo, arca com a totalidade do custo, no modelo PREÇO FECHADO.

Pois bem, quando se intensifica o debate, alcançado ele a mídia, verifico, com todo o respeito às demais opiniões que, em boa parcela, ele remete a dogmas.

Quando conheci o Beira-rio, lá pelos meus dez anos de idade, fiquei espantado com a obra. Ganhamos espaço onde antes havia água, erguemos um dos maiores e mais modernos estádios do mundo e tudo com as nossas próprias forças e recursos, especial e meritoriamente dos torcedores. Contextualizando, o mundo era de um jeito e a economia também. Andava-se de bonde em Porto Alegre, à época conhecíamos todos os grandes empreendedores locais, o mundo ainda não havia sofrido os efeitos da chamada globalização.

Hoje, tudo está diferente. O mundo mudou. Os grandes negócios são reservados às grandes empresas multinacionais, os preços são internacionalmente estabelecidos e o futebol deixou de lado o romantismo para assumir o viés do realismo financeiro.

Em nenhum lugar do mundo estádios são construídos com os esforços de antes. Há, também, questões mercadológicas, pois os investimentos na compra de suítes, camarotes e cadeiras, estão mais restritos. As empresas sofrem rigorosos controles de gastos, os investimentos são restritos e as pessoas se deparam com enormes dificuldades para a subsistência pessoal e familiar.

Concretamente, quais os riscos que temos pela frente? O primeiro é o de, ao insistir no modelo atual de obras com recursos próprios, perder o Beira-Rio como sede da Copa. Risco que está afastado com a parceria de uma grande construtora. Este risco é quase que imediato. O segundo é o de contrairmos um empréstimo vultuoso, contando com receitas incertas, eis que assumiríamos direta e totalmente o risco integral do negócio. Um empréstimo na proporção do que é acenado significaria um desencaixe mensal de mais de um milhão de reais. O terceiro, para mim o mais significativo, é o da pulverização de nossas energias. A meu modesto juízo, a exemplo do que ocorre nos demais grandes clubes no mundo todo, o Internacional deve concentrar toda a sua força gerencial no futebol, atividade fim, no marketing, atividade resultante e no relacionamento com o quadro social.

A lógica da manutenção do atual modelo de obras, segundo os seus defensores, encontraria justificativa em apenas um aspecto – estaríamos abrindo mão de receitas futuras. Esclareça-se receitas que não temos, inexistentes. Receitas que retornarão ao Clube, integralmente, após algum tempo.

Seria como, se ao fazer um negócio com alguém, estivéssemos mais focados nos resultados a ser obtidos pelo parceiro do que nas facilidades e resultados a nós destinados. Alguém tem dúvida de que para incrementar um negócio na sua integralidade é necessário tempo, experiência, investimentos publicitários etc?

Vejamos, por exemplo, a realidade da maioria dos shoppings de Porto Alegre, e o tempo necessário para que se firmem como bons negócios. No caso estamos falando de empreendimentos que contemplam especialistas no setor.Quais foram as atividades secundárias, como lojas, que deram resultados satisfatórios ao Clube?

Pelo que lembro, tivemos a Churrascaria Saci, o Barril, o Gato do Alemão, enfim, locações diretas e que criaram mais problemas do que soluções financeiras.

O que dizer, ainda, do largo tempo que resultou da inércia quanto a uma destinação ao Estádio dos Eucaliptos? Inúmeras ocupações irregulares, invasões, deterioração e locatários inadimplentes.Administrar o que não conhecemos é sempre problemático, desvia o nosso foco e compromete o nosso futuro.

Em síntese, abro o meu voto!

Sou, diante das circunstâncias que não permitem mais dispêndio de tempo, a favor da parceria com uma grande construtora.

Na proposta da construtora a ser apreciada pelo Conselho Deliberativo, há a inclusão de um Centro de Treinamentos para o futebol, exigência da modernidade e necessidade para aprimorar nossa principal atividade. Deixemos bares, lojas, restaurantes, estacionamentos, hotéis, etc., para quem entende do ramo. O que queremos é um futebol competitivo, ganhador de títulos e cada vez mais conforto para os nossos torcedores.

Não desejo perder a Copa para o nosso adversário, depois de festejada a conquista e nem comprometer o nosso futuro no futebol, razão maior de toda a nossa existência!

Inspirado em Hammlet: endividar ou não, eis a questão!

Roberto Siegmann, Conselheiro do Sport Club Internacional há 24 anos, e atual Vice-Presidente de Futebol.

17 comentários:

Patrick disse...

Sendo curto e grosso:
Gostei. Fundamentaste tua posição com argumentos coerentes. E mais, estou contente com teu trabalho no Internacional.
Parabéns

Beldades disse...

Acho que podemos, sim efetuar a parceria.

Acho que temos várias fontes de receita e, se a contrutora vier a lucrar com empreendimentos que ainda não existem, depois do tempo regulamentado o patrimonio será nosso. Reformas e manutenção serão mais fáceis do que nos comprometermos com o valor da venda de 10 grandes jogadores...

No mais, como Colorado, me preocupo mais com as ações do Inter para lucrar com a Copa do Mundo no Gigante do que, propriamente, com a forma como viabilizaremos as reformas.

Tapejara disse...

Tem meu apoio TOTAL SIEGMANN! Sou colorado desde que nasci e sócio efetivo desde 2006. Acredito que FUTEBOL eh contigo e BAR, e etc... eh com investidor!

Luciano disse...

Aceito sua opinião. Mas, na minha opinião, o INTER deveria se licar pra essa copa e reformar o estádio nos moldes de como ele foi feito. Com ajuda do povo, hoje sócios. Assim que nos tornamos GIGANTES. Que joguem no campo adversário. Estou mais afim de ver um BEIRA-RIO com um bom futebol do INTER do que de seleções.
Abraço.
Luciano Caverna

TiagoS disse...

Caro Roberto Siegmann,
após ler estas explicações, etc..
lhe pergunto: se o foco é o futebol, porque investir tanto por apenas 2 ou 3 jogos, no Beira-Rio?

Visto que é um clube do povo, clube de garra, que sofre, mas que canta e nunca desiste, que cresceu "na rua" e "sozinho", porque agora depender?

Sendo assim, acho que devemos fazer o que está ao nosso alcance no momento, sou contra a parceria com uma construtora e apoio seguirmos sozinhos, com o braço do povo, e investir em futebol dentro de campo.

Grato!

Schroder (EUA) disse...

Ola Siegmann,

Pela pesquisa que tenho feito no Blog Vermelho e pelo que os colorados tem escrito lá me parece que estamos em maior nesse pensamento de que a parceria é a melhor opção.

Então não acredito que teremos muito problema em essa opção ser aceita.

Claro que tudo depende de realmente o que o contrato vai dizer. Será só estacionamento e areas vips por 20 anos? Fazendo um calculo basico imagino 3000 vagas usadas por jogo a 10 Reais, 4 vezes ao mes...12 meses...20 anos. Isso dá 28 Milhoes. Longe do retorno que a AG vai querer.

E se o retorno não aontecer depois de 20 ano o que vai acontecer? Ficaremos devendo algo a AG? São questões a ser esclarecidas. Mas em principio sem duvida essa é a melhor opção. Só precisamos saber os detalhes exatos para não haver surpresas depois.


Louis Schoder
New Jersey, EUA
www.BlogVermelho.net

Cassiano disse...

Penso exatamente da mesma forma!!! Devemos fazer de tudo para que o projeto Gigante para Sempre seja executado na sua totalidade, com Marina, Hotel, estacionamento! Lembrando que 20 anos parece muito, mas passa rápido!!!

Vagner disse...

Olá Siegmann, sou colorado e sócio do inter. O inter se não fechar parcerias, vai se encher de dívidas. Prefiro ver as contas em dia e o clube trazendo jogadores como o Bolatti, Cavenaghi… Focado no futebol e na sua torcida, razão da sua existência. Um forte abraço e continue na luta.

Eduardo disse...

Onde eu assino, dr.?
Todos os grandes clubes do mundo hoje fazem parcerias nesse sentido.
Eu quero continuar vendo o meu Inter em condições de ganhar todos os campeonatos que disputa.
Não quero ver o futebol comprometido...

Renato Fagundes disse...

Parabéns, Roberto! O nosso negócio é futebol, e não construção civil. Com esse modelo atual, levaríamos quantos anos para entregar ao torcedor colorado um Gigante renovado? 5 anos? 10 anos? Sem falar no mico que seria ver os jogos da Copa do Mundo indo para o estádio do tradicional adversário. Um abraço.

Eduardo Redlich Joao disse...

Como sempre de forma clara e objetiva. Parabéns pela postura, continue assim, informando o torcedor colorado que é o que importa.

Emerson disse...

Parabéns Siegmann.
Creio que nós colorados queremos continuar sendo campeões e para isso grande parte da receita do clube deve ser para o futebol. Espero que os conselheiros façam todas discussões necessárias mas tenham em mente que o Internacional é um clube de futebol acima de tudo.

Maickel disse...

Siegmann, onde eu assino? Penso exatamente como você!

Diego disse...

Concordo plenamente.
Não existe nada a acrescentar ao texto.
Um endividamento gigante destes irá comprometer a saúde financeira do clube por um bom tempo. E tudo isso, pra termos 100% de um rendimento que nem se sabe qual será.
Acredito que o futebol e os títulos são o melhor investimento que se pode fazer para movimentar a engrenagem de melhorias que se faz necessária ao longo dos anos.
Invistam cada vez mais no futebol. Sem ele, de nada serve um lindo estádio com estacionamento coberto, shopping e hotel.
Parabéns, Siegmann, pela iniciativa de manter aberto este canal de comunicação com os torcedores.
Um grande abraço,
Diego Martins

joshua disse...

Muito bom Siegman! Gostei!

Abraços de um baita colorado!

Joshua RD - Sócio do Inter desde Junho de 2006

Maikovisky disse...

To começando a achar melhor fazer uma parceria com uma construtora, que tem experiência em construir e lidar com detalhes que o clube não precisaria nem ficar sabendo, e desde que tudo esteja pronto e nos conformes. Para mim esta ótimo.

Algumas obras poderiam ter sido iniciada a muito tempo, como o estacionamento, mas somente agora esta sendo feito algo a respeito. E digo pelo menos o primeiro piso do novo estacionamento. Mas o clube sempre focou no Futebol.

Fora que para o futuro a cosntrução de um Hotel, Shopping é bem interessante, mesmo que a construtora saia ganhando com essas outras construções, para o Inter é vantajoso, pois terá gente circulando pelo complexo, e usufruindo de outras atividades do complexo. De repente o Inter possa ganhar com o uso da marca Internacional no Hotel ou Shopping. E quem sabe um centro de reabilitação de esportistas, utilizando a experiencia dos médicos do Inter.

Acho interessante na proposta a construção de um CT (apesar que gostaria do CT dentro do complexo do Beira-Rio, mais motivos para visitar o Beira-rio, ver treinos, ver jogadores)

Outra coisa, esse assunto deveria ter sido mais aberta aos sócios, onde ao menos pudessem dar suas opinões e discuções. Poderia ter algo na página do sócio em discutir assuntos do clube entre os sócios.

Valmorj disse...

Prezado Siegmann!
Preliminarmente quero dizer que sou favorável a parceria também pelos seguintes motivos:
1- O futebol por sí só ja é uma atividade de alto risco. Assumindo o ônus da obra, o clube estaria assumindo, desnecessariamente, ainda mais risco;
2- A atividade fim do Inter é o futebol. A de uma empreeiteira é a construção. Por esse simples motivo a empreeiteira ja teria ganhos em escala, reduzindo custo final da obra;
3- O que custaria ao Inter fazer a parceria? Abrir mão de receitas que hoje não existem, como a do estacionamento e das novas suítes;
4- E a última e talvez a mais singela, por confiar plenamente na capacidade de julgamento do Prof Aod.